Enquanto Danielle circulava por entre as mesas, uma brisa vinda do Atlântico lhe acariciou os cabelos. Levando três pratos na mão esquerda e outro na direita, ela usava uma calça jeans e uma camiseta com os dizeres: Ivan's: Experimente nosso peixe, peça o linguado. Ela levou os pratos para quatro homens que usavam camisas polo; o que estava mais perto dela lhe chamou a atenção e sorriu. Embora ele tentasse dar a impressão de que era apenas um rapaz amistoso, Danielle sabia que ele continuava a observá-la enquanto ela se afastava da mesa. Luanny havia mencionado que os homens eram Wilmington e estavam procurando locações para serem usadas em um filme.
Pegou uma jarra de chá gelado e voltou a encher os copos dos rapazes antes de voltar para a copa. Ela deu uma olhada na paisagem. Era fim de Dezembro, a temperatura estava perto da marca ideal e o céu se estendia azul até o horizonte. Além dela, a hidrovia intralitorânea estava calma apesar da brisa e parecia espelhar a cor do céu. Um bando de gaivotas estava empoleirando no corrimão que circundava o restaurante, esperando para disparar por entre as mesas se alguém deixasse um pedaço cair no chão.
Ivan Smith, o proprietário,as odiava. Ele dizia que eram ratos-com-asas e já havia patrulhado a área do corrimão com um desentupidor em punho, tentando espantá-las. Lanny havia faladoao ouvido de Danielle que estava mais preocupada com o lugar onde o desentupidor estava do que com as gaivotas. Danielle não disse nada.
Ela começou a fazer outro bule de chá, limpando o balcão. Um momento depois, sentiu que alguém lhe tocava o ombro. Virou-se e viu que era a filha de Ivan, Juliane, uma garota bonita de 15 anos, com o cabelo amarrado em um rabo de cavalo. Ela estava trabalhando meio período no restaurante como recepcionista.
- Dani, você pode atender a uma outra mesa?
Danielle olhou pelo restaurante e observou as mesas- É claro- desse ela
Juliane desceu as escadas. Danielle conseguia ouvir fragmentos de conversas vindos das mesas próximas. As pessoas falavam sobre amigos, família, o tempo ou sobre pescaria. Em uma mesa que ficava no canto do salão, ela viu duas pessoas fechando os cardápios. Foi até eles e anotou o pedido, mas não ficou perto da mesa tentando conversar sobre amenidades com os clientes, como Luanny fazia. Danielle não era muito boa pra puxar assunto, mas compensava isso com sua eficiência e cortesia. E os clientes pareciam não se importar.
Ela trabalhava no restaurante desde o começo de Junho de 2012. Ivan a contratara em uma tarde fria, em que o céu estava limpo e tinha um tom azul-turquesa. Quando disse que poderia começar o trabalho na segunda-feira seguinte, Danielle teve que se esforçar para não chorar na frente dele. Ela esperou até estar longe do restaurante, a caminho de casa, para se esvair em lágrimas. Naquela época, ela não tinha dinheiro nenhum e não comia há dois dias.
Danielle percorreu o salão, enchendo copos com água e chá gelado antes de voltar para a cozinha. Caio, um dos cozinheiros, piscou para ela como sempre fazia. Há dois dias ele a tinha convidado para sair, mas Danielle disse que não queria se envolver com ninguém que trabalhasse no restaurante. Ela teve a impressão de que ele logo tentaria de novo e esperava que seus instintos estivessem errados.
- Duvido que o movimento vá diminuir hoje- comentou Caio.
Ele era Loiro e esguio, talvez um ou dois anos mais novo do que ela e ainda morava na casa dos pais- Toda vez que eu acho que vamos ter um momento para respirar o restaurante volta a encher.
- O dia está bonito hoje.
- Mas por que essas pessoas estão aqui? Em um dia como este, elas deveriam estar na praia ou pescando. E é exatamente isso que eu vou fazer quando terminar o expediente.
- É uma boa ideia.
-Quer que eu a leve para casa mais tarde?- Ele se oferecia para levá-la para casa pelo menos duas vezes por semana.
- Obrigada, mas não é preciso. Eu não moro tão longe daqui.
- Não é problema nenhum. Eu ficaria feliz em levá-la- insistiu ele.
- Caminhar me faz bem.
Ela lhe entregou a folha de papel com os pedidos anotados e Caio a pregou no quadro com os outros. Danielle pegou um dos pedidos que devia levar de volta ao salão, foi até a parte do restaurante onde estava atendendo e serviu os clientes.
O Ivan's era uma instituição local, um restaurante que funcionava há quase trinta anos. Desde que começara a trabalhar ali, Danielle identificara os clientes habituais e, enquanto atravessava o salão, seus olhos iam em direção a pessoas que ainda não tinha visto. Casais flertando, outros se ignorando mutuamente. Famílias. Ninguém parecia estar deslocado naquele lugar, e ninguém pedira informações a seu respeito. Mesmo assim, havia épocas em que suas mãos começavam a tremer, por isso ela ainda deixava uma luz acesa quando dormia.
Seu cabelo, de um tom castanho-avermelhado, era tingido na pia da cozinha da pequena casa que comprou. Como ela não usava maquiagem, sabia que seu rosto acabaria se bronzeando um pouco, talvez um pouco demais, então lembrou a si mesma de comprar protetor solar.
No entanto, após pagar as contas da casa, não sobrou muito dinheiro para itens supérfluos. Até mesmo o protetor solar iria estrangular suas finanças.O emprego no Ivan's era bom e ela estava feliz por trabalhar ali, mas a comida que o restaurante servia não era cara _ e isso significava que as gorjetas que ela recebia não eram as melhores. Por causa de sua dieta habitual, composta por feijão com arroz, macarrão e mingau de aveia, ela perdera peso nos últimos quatro meses, e até conseguia sentir suas costelas por debaixo da camiseta. Algumas semanas atrás, ela tinha círculos escuros ao redor dos olhos, os quais imaginava que nunca conseguiria tirar do rosto.
- Acho que aqueles caras estão olhando para você- disse Luanny, com um meneio de cabeça em direção á mesa dos quatro homens do tal estúdio de cinema. - Especialmente aquele de cabelo castanho. O mais bonito da mesa.
- Ah- disse Danielle. E começou a preparar outro bule de café.
Qualquer coisa que ela dissesse á Luanny certamente cairia nos ouvidos das outras pessoas. Então, Danielle normalmente não conversava muito com ela.
- O que foi? Você não achou bonito?
- Eu não prestei muita atenção.
- Como você pode não prestar atenção quando um cara é bonito?- Perguntou Luanny, descrente, olhando para ela.
- Não sei.
Assim como Caio, Luanny era dois anos mais nova do que Danielle, talvez com 17 anos, mais ou menos. Ruiva, de olhos verdes e sem papas na língua, ela namorava um cara chamado Steve, que fazia entregas.
- Você anda muito no mundo da lua, vamos sair hoje!
- Não obrigada!
Já era fim de tarde, Danielle amava ver o pôr-do-sol se escondendo atrás do mar, aquilo deixava os olhos dela brilhando, Luanny e Caio foram embora, menos a Danielle pois como sempre ela iria fazer o segundo turno, pois isso ajudava a ela a juntar o dinheiro da nova faculdade dela!
- Oi anjinha linda tudo bem?
- Tudo ótimo Alex!
Esse era o Alexandre, um homem muito simpático que adora colocar apelidos fofos nas amigas, mas é fiel a sua esposa e é um pai que ama muito seus filhos.
Continua...
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